do amor
nada há de restar
se não a lembrança
de que o amor
não se lembra tão fácil
de se esquecer

(Julianna Motter)

SE VOCÊ ENCONTROU
Fabrício Carpinejar

A razão serve para o desespero, não para explicar a alegria. A alegria é inexplicável.

Se você tem um amor, segure, não pense, não pese os prós e contras, não faça matemática.

Se você encontrou um amor, prenda com os dentes do coração.

Não solte, não brinque com a sorte, não entre em disputa para prevalecer seus hábitos, não pense que é banal e comum.

É mais fácil nascer de novo do que ressuscitar um amor.

Deponha o orgulho, jogue fora a teimosia, perdoe as diferenças, contenha a implicância, entenda a raiva, mude de personalidade, queime a identidade.

Brigue por ele, brigue com o mundo por ele, brigue com sua própria alma por ele.

Demita o terapeuta, cancele o amigo, prepare a liminar das palavras, recorra ao tribunal, desça ao inferno.

Não precisa de apoio de ninguém, e sim de coragem.

Não há como lhe ensinar coragem (ensina-se medo, mas coragem não).

Procure coragem na saudade mais recente. Procure coragem no cheiro mais longo. Procure coragem no beijo mais demorado.

Ter alguém que faça tudo por você não se repete.

Alguém que não desiste quando muitos já teriam desistido, alguém que lhe espera quando muitos já teriam acenado com a ironia e trancado a porta.

Alguém sem motivos para amar e que continua amando.

Alguém sempre disponível, alguém que para tudo para ficar com você, que jamais diz não, que cancela compromissos e viagens, que unicamente quer estar com você.

Alguém que não demora nem dois minutos para responder uma mensagem, nem uma hora para estar em seus braços.

Alguém preocupado se você comeu, se você dormiu, se você está bem.

É um amor inteiro: é alguém que completa todos os seus bons sentimentos, e também completa os ruins.

É um homem inteiro: nunca se conheceu tanto a partir dele. Conheceu também sua maldade, seu ódio, sua angústia, sua loucura.

Nenhum outro homem despertou tudo em você. Tudo, inclusive o que não presta. Antes conhecia apenas parte de si, a parte equilibrada, a parte sociável, a parte controlada. Antes conhecia apenas o lado bom da vida, não conhecia o amor.

O amor é se ver no reflexo do lago no momento em que chove, nunca será um espelho parado.

Se você encontrou um amor, prenda com as unhas do coração.

Não largue esse amor até a morte. 

Não acredito em vida eterna, acredito em amor eterno. 

E é agora.

te dizer, meu amor, que o amor não deu certo
voltar uma duas três vinte e cinco casas
abrir mão
abrir peito
alçar vôo
te olhar caminhando de costas pra mim
e depois acelerando o passo
te ver correndo
abaixar os olhos
apertar o peito
segurar o laço
desfazer os nós
me desfazer de nós

(Julianna Motter)

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colasanti, (Do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.)

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